Amigo inseparável de JPII fala sobre os 40 anos ao lado do Papa

Foram quase 40 anos de estreita convivência com João Paulo II (Karol Wojtyla) - 12 em Cracóvia, na Polônia, e mais 27 em Roma, na Itália.

Stanislaw Dziwisz queria que os últimos momentos ao lado do Papa durassem até o infinito: "Era a última vez que eu via seu rosto... Sim, é claro, depois eu o reveria tantas outras vezes, a cada hora, cada dia. Eu o reveria com os olhos da fé. E naturalmente o reveria com os olhos do coração, da memória. Assim como continuaria a sentir sua presença, mesmo se de uma maneira diferente daquela à qual estava habituado. Por sorte, me vieram ajudar aquelas palavras: 'Meu Deus, que o rosto dele veja agora Teu rosto paterno, que o rosto dele que nos foi subtraído contemple a Tua beleza'".
Dziwisz foi nada mais, nada menos que o secretário particular do Bispo de Roma durante seus quase 27 anos de pontificado. Mais que assessorar a agenda e compromissos, Dziwisz teve a chance de partilhar a vida com seu conterrâneo polonês, que deu nova envergadura ao papel da Igreja no alvorecer do terceiro milênio. Hoje, Dziwisz é o Cardeal Arcebispo de Cracóvia, ocupando a sede que já foi de responsabilidade do amigo Wojtyla.

A amizade entre os dois é relatada no livro Uma vida com Karol, que recolhe as memórias do secretário e foi lançado no Brasil pela Editora Objetiva. Uma comunhão de almas que começou muitos anos atrás, em terras polonesas, mais precisamente em 8 de outubro de 1966.

Acesse
.: Página especial da beatificação de JPII


Naquela data, o então Arcebispo de Cracóvia, Dom Wojtyla, convocou o jovem sacerdote Stanislaw para ir até o Arcebispado. Com 27 anos, Dziwisz ouviu da boca do pastor da Arquidiocese o convite para ser seu secretário particular:

"Logo que cheguei à sua presença, o arcebispo me olhou fixamente e me disse: 'Virá ficar comigo. Aqui poderá prosseguir os estudos e me ajudará'. Perguntei: 'Quando?'. Respondeu-me: 'Pode vir hoje'. Virou-se na direção da janela e se deu conta de que já era noite: 'Vá até o conselheiro para que ele lhe mostre as acomodações'. E eu: 'Venho amanhã'. Olhou-me sair um pouco curioso, mas percebi que sorria".


A vida com Karol

Stanislaw recorda que o Bispo Wojtyla nunca perdia tempo quando saía para uma visita pastoral em alguma paróquia ou celebração em alguma igreja. No caminho, sempre rezava e meditava. Durante as celebrações das Santas Missas, também procurava evitar ao máximo celebrar sozinho: "Queria ser fiel ao princípio de que a Eucaristia não é celebrada exclusivamente pelo sacerdote, mas junto com o povo de Deus que dela participa: por Cristo e com Cristo", narra o Cardeal Dziwisz.

Ainda quando padre, em meados dos anos 1950, Wojtyla reunia um grupo de universitários do qual era chefe e guia espiritual, mesmo com todos os riscos implicados pelo rígido controle e espionagem comunista. "Era o famoso 'apostolado da excursão', e para não ser notado pela Segurança, vestia roupas civis, e os jovens o chamavam de 'Wujek', tio", conta Stanislaw.

Também durante o período do Concílio Vaticano II o então padre Dziwisz esteve próximo de Wojtyla, que teve especial participação na estruturação da Constituição Pastoral Gaudium et Spes - sobre a Igreja no mundo atual.

À frente da Arquidiocese de Cracóvia, Wojtyla não se poupou a comprar briga com os comunistas. Esses acusaram-no de antipatriótico, devido ao respaldo que deu a uma carta enviada pelo episcopado polonês aos bispos alemães, pedindo o perdão recíproco para se curarem as feridas ainda oriundas da II Guerra Mundial.

Em 1966, durante as cerimônias da grande festa do Milênio, que celebraram o milenar aniversário do "batismo" da Polônia - na pessoa do rei Mieszko I - e da fundação do Estado Nacional, os comunistas também não cederam: buscaram atrapalhar de todas as formas possíveis as celebrações e ofuscar a data através da implantação de outras comemorações.

Também houve a tentativa de implantar intrigas entre Wojtyla e o Primaz da Polônia, o Arcebispo de Varsóvia, Cardeal Stefan Wyszyński, apesar de ambos serem grandes amigos e parceiros na luta por ressaltar as raízes cristãs daquele país europeu.


Arquivo
"Chorávamos. Como se podia não chorar? Eram, ao mesmo tempo, lágrimas de dor e de alegria", conta
O dia da morte

Para além de todos os acontecimentos históricos, Dziwisz revela um coração agradecido a Deus pela graça de ter podido conviver com uma das maiores personalidades de todos os tempos. É com emoção que relembra a noite de 2 de abril de 2005, quando João Paulo II morreu:

Chorávamos. Como se podia não chorar? Eram, ao mesmo tempo, lágrimas de dor e de alegria. E foi então que se acenderam todas as luzes da casa... Depois não lembro mais. Era como se tivesse descido repentinamente a escuridão. A escuridão acima de mim, dentro de mim.

Sabia bem o que acontecera, mas era como se, depois, não conseguisse aceitar. Ou não conseguisse entender. Colocava-me nas mãos do Senhor, mas quando pensava ter acalmado o coração, voltava a escuridão. Até que chegou o momento da despedida.

Havia toda aquela gente. Todas aquelas pessoas importantes vindas de longe. Mas, principalmente, havia o seu povo. Havia os seus jovens. Havia aquelas escritas, tão significativas e tão impacientes. Na Praça de São Pedro havia uma grande luz. E agora também havia luz dentro de mim.

Concluindo a homilia, o Cardeal Ratzinger fez aquela referência à janela e disse que com certeza ele estava lá, nos vendo, nos abençoando. Eu também me virei, não pude evitar, mas não consegui olhar para cima

No final, quando chegaram à entrada da basílica, os que carregavam o caixão o giraram lentamente. Como se para lhe permitir um último olhar em direção à sua praça. A despedida definitiva dos homens, do mundo.

Mas também de mim? Não, de mim não. Naquele momento, não pensei em mim. Vivi-o junto com todos os outros. E todos estavam abalados, perturbados. Mas, para mim, foi algo que nunca poderei esquecer.

Nesse ínterim, o cortejo estava entrando na basílica, tinham de levar o caixão até a tumba. E então, justamente então, comecei a pensar...

Agora, na hora da morte, ele foi sozinho. Sempre o acompanhei, mas daqui ele partiu sozinho. E o fato de não poder acompanhá-lo me tocou muito. Sem dúvida, ele não nos abandonou. Sentimos sua presença, e também as tantas graças conseguidas através dele. E, afinal, eu o acompanhei até este ponto da Igreja.

Mas, a partir daqui, foi sozinho.



Quem é Stanislaw?

Stanislaw nasceu no ano de 1939, em Raba Wyzna, um vilarejo aos pés da grande cadeia montanhosa da Polônia, chamada Tatra. Foi o quinto de sete filhos, cinco homens e duas mulheres. O pai, de quem herdou o nome, trabalhava como operário nas ferrovias. A mãe, Zofia, cuidava da casa e da criação dos filhos. O pai morreu quando Stanislaw não tinha ainda nove anos.

A família manteve na própria casa um judeu escondido durante a II Guerra, sob o constante risco de serem descobertos pelos alemães. A encarnação da caridade evangélica, ensinada no dia a dia da família.

Após concluir o ensino médio, entrou no seminário. O ano era 1957. E foi então que encontrou pela primeira vez o padre Karol Wojtyla, que era professor de moral. "Impressionou-me logo, acima de tudo por sua grande piedade, por sua sabedoria, pelas magníficas aulas que nos dava, mas também pela facilidade com que estabelecia contatos pessoais", testemunha Dziwisz.

Em 1958, Wojtyla é nomeado Bispo auxiliar de Cracóvia. Em 1963, o Papa Paulo VI nomeia-o Arcebispo da mesma Arquidiocese. Foi exatamente neste ano, em 23 de junho, que Stanislaw foi ordenado sacerdote pelo seu ex-professor de moral.

Em 1985, o Papa João Paulo II conferiu-lhe o título de Prelado de Sua Santidade e, em 1996, o encargo de Protonotário Apostólico. Em 7 de fevereiro de 1998, o Santo Padre nomeia-o Bispo Titular de San Leone e Prefeito Adjunto da Casa Pontifícia - foi sagrado Bispo pelo Papa em 19 de março do mesmo ano. Escolheu como lema de vida episcopal: Sursum corda! (Corações ao alto!). Em 29 de setembro de 2003 foi elevado à dignidade de Arcebispo.

Em 3 de junho de 2005, o Papa Bento XVI nomeou-o como Arcebispo Metropolitano de Cracóvia, da qual tomou posse no dia 27 de agosto de 2005, com entrada solene na Catedral de Wawel e celebrando Missa na praça central. Aos 4 de novembro de 2005, inicia em Cracóvia o processo rogatório sobre as heroicidades e sobre as virtudes do Servo de Deus João Paulo II (Karol Wojtyła). Uma das importantes decisões do novo arcebispo é a fundação em Cracóvia do Centro João Paulo II - Non abbiate paura (Não tenhais medo), que funciona junto ao Santuário da Divina Misericórdia, em Łagiewniki, na Polônia.

Foi criado cardeal por Bento XVI aos 24 de março de 2006, com o título da Igreja de Sancta Maria del Popolo. No Vaticano, é membro da Congregação para a Educação Católica e do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais.

Fonte : cancaonova.com.br